Civilização, barbárie e o pênalti no Dudu

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Eu estou com pressa, você está com pressa, o Ralf está com pressa, todo mundo anda com pressa ultimamente. Para evitar que todo mundo saia correndo e nos atropelemos uns aos outros como o Ralf fez com o Dudu no último domingo combinamos de seguir algumas regras.

É chato ter que esperar o farol abrir ou pegar fila, por exemplo, mas é isso que nos permite viver em sociedade, aumenta as chances de chegarmos vivos ao final do dia. Mais ainda considerando que querem rever a lei do desarmamento, mas isso já é outro assunto.

Quando criaram as regras do futebol, em 1863, entenderam, até por falta de melhor opção naquele momento, que um ser humano deveria arbitrar e decidir as situações em que os competidores, por estarem competindo, e de alguns jornalistas, por estarem torcendo(?!), pudessem interpretar de forma diferente, cada um a partir de seu ponto de vista, ângulo de visão (ou de cegueira).

Ser humano é alguém que tem telencéfalo altamente desenvolvido e polegar opositor. Jogadores, torcedores, jornalistas, juízes e as mães dos juízes, como se sabe, são seres humanos.

Seres humanos erram, dizem até que errar é humano, mas isso não impediu os criadores das regras do futebol e dos regulamentos dos campeonatos de manterem o ser humano como árbitro das partidas. Para ajudar colocaram mais dois perto das bandeirinhas de escanteio, (em alguns casos) outros dois nas linhas de fundo e outro, chamado de quarto árbitro, sentado perto do meio de campo, de onde não consegue enxergar direito, mas pode contribuir com as discussões dando palpites errados e gerando confusão. Com o tempo tentaram até um “árbitro de vídeo”, que ajudaria a tirar dúvidas que a equipe de arbitragem humana, portanto falível, poderia ter. Alguns clubes, no entanto, vetaram esse recurso.

Assumimos o risco e, mais que isso, reforçamos a regra afirmando que essa equipe de árbitros não poderia ter “ajuda externa”.

Ajuda externa é aquela vinda de qualquer outro ser humano, seja torcedor, jornalista que torce (ou distorce) ou comentarista de arbitragem. O erro, a falibilidade de um ser humano, portanto, faz parte do jogo, das regras.

É verdade que alguns falham mais do que outros, que alguns clubes sejam mais favorecidos que outros, mas… as regras do futebol, os semáforos e as filas são o que nos distanciam da barbárie.

Assim, mesmo que as imagens do atropelamento do Dudu pelo Ralf sejam claras, esse não é o ponto principal em discussão, ainda que muita gente boa(?!), e cega, finja ser.

O que está em discussão é se queremos viver em uma sociedade em que a nossa pressa é mais importante que a do outro e dane-se o farol vermelho; em que o mais “esperto” fura a fila; em que o árbitro não siga sua interpretação dos lances; torcedores depredem estações de metrô e se agridam uns aos outros, jornalistas distorçam os fatos; juízes prendam por convicção e ideologia…

Olhando daqui, parece que estamos na direção da barbárie.