Vivi Falconi – A Narradora

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De Itaquera para Madri – ou melhor, para fazer história

Se eu parar e olhar minha vida cerca de dois meses atrás, jamais teria pensado ou imaginado viver tudo isso que tento relatar aqui.

Estava vivendo minha vida tranquilamente, trabalhando muito e sempre apaixonada por tudo o que fiz e faço.

Desde pequena, o futebol e outros esportes são minhas grandes paixões. Aos nove anos de idade ganhei minha primeira bola de futebol de salão das mãos do meu amado e saudoso pai. Cresci estudando em uma escola que apoiava totalmente os esportes. Praticava também vôlei, handebol, basquete, salto em distância e até mesmo arremesso de peso (risos).

Mas o engraçado é que em nenhum momento da minha vida me imaginei como narradora de qualquer esporte que fosse. Nem mesmo quando em 2015 fiz uma pequena narração de um lance da seleção feminina para participar de um concurso de uma página do Facebook.

Eu não poderia imaginar que um apoio de uma amiga de trabalho pudesse me fazer viver uma das mais intensas e loucas experiências da minha vida.

Foi essa amiga que me informou sobre o programa que o Esporte Interativo iria lançar para descobrir narradoras e levar uma delas para narrar pela primeira vez na história um jogo da Liga dos Campeões da Europa (in loco). Ela pediu pra eu me inscrever e enviar o vídeo. Eu imediatamente comecei a rir e disse a ela que nunca havia narrado e que certamente passaria vergonha se tentasse.

Ela me enviou o link e disse: “Se inscreve, você tem potencial”.

Deixei o link no What´sApp por alguns dias e, na correria do dia a dia, nem pensava em gravar vídeo nenhum. Certo dia, passando por minhas publicações no Instagram, encontrei aquele pequeno vídeo que narrei para o concurso e foi então que pensei no link que minha amiga havia me enviado sobre o programa “A Narradora” do Esporte Interativo. Decidi então gravar o vídeo para o programa e ver “no que dava”.

Gravei o vídeo com lances do jogo entre PSG e Barcelona, aquele jogão dos 6×1 para o Barça. Enviei uma semana antes de se encerrarem as inscrições e esqueci, sim, esqueci completamente do vídeo.

Um dia depois do término das inscrições, fui fazer uma pesquisa no Youtube e pra minha surpresa, vi que meu vídeo tinha vários comentários positivos sobre a narração e todos eles feitos por homens. Dei risada e disse para minha mãe: “Tô achando que a brincadeira pode dar certo”.

Na semana seguinte recebi o contato da produção do programa informando que meu vídeo havia sido aprovado e que eu estava selecionada para participar do programa. “Está preparada pra largar tudo e vir pro Rio de Janeiro iniciar as gravações?” – Sem nem pensar eu respondo: “Vamos nessa!

Nunca imaginei que a partir deste dia começaria a jornada mais louca, encantadora e sensacional de toda a minha vida.

No dia 26 de Março de 2018, doze meninas de diversos lugares do Brasil se encontram em São Paulo para iniciar a jornada no programa “A Narradora Lays”. Doze diferentes vozes, sotaques, personalidades, mas um único sonho: Ter uma mulher narrando um jogo de futebol na televisão e, muito além disso, dar ao público a opção de escolha. Que ao ligar a tv para ver um jogo, se tenha uma opção de voz feminina para ouvir.

Dentre as doze selecionadas, apenas sete meninas seguiram para o Rio de Janeiro em busca deste sonho. Passaríamos três semanas aprendendo muito sobre narração, esportes e emoção. Começava ali o caminho para abrir uma porta que há muitos e muitos anos vem tentando ser aberta por tantas mulheres.

Eu, Vivi Falconi, fui uma das que entraram no programa sem saber nada sobre narração, totalmente “crua” e que semana após semana foi aprendendo tanto sobre esta arte de narrar, que foi ficando ainda mais apaixonada pelo esporte.

Na primeira semana, confesso foi muito difícil. A repercussão nas redes sociais trouxe seres que deixavam comentários ridículos de se ler em pleno século XXI. Perceber que ainda vivemos em uma sociedade com tantos machistas e pessoas que acham que a rede social é espaço para falar o que quiser é lamentável.

Mas respirei fundo, não deixei me abater e segui em frente. Cada semana no programa era um desafio que eu procurava cumprir com muita seriedade e principalmente paixão. Aproveitava cada ensinamento dos narradores, jurados e equipe do Esporte Interativo e fazia cada narração como se eu estivesse realmente dentro daquele evento. Tudo era e ainda é muito apaixonante pra mim.

As semanas foram passando e quando me dei conta eu era uma das finalistas juntamente com uma grande amiga, Elaine Trevisan.

Juntas, já começamos a escrever história e fomos as primeiras mulheres a narrarem um jogo de semifinal da Liga dos Campeões (via tubo). O jogo narrado foi Liverpool x Roma, transmitido ao vivo pelo Esporte Interativo 2 e que foi a prova final para a escolha da vencedora do programa.

Só com todas essas realizações eu já me sentia vencedora, pois foi no programa que descobri meu potencial para a narração e passei a acreditar mais em mim mesmo e na capacidade e talento que tenho.

No dia 24 de Abril, às 20h30 da noite começava o programa e dentro de algumas horas iríamos descobrir qual seria a primeira mulher a narrar diretamente do Santiago Bernabéu, uma partida de semifinal da Liga dos Campeões entre Real Madrid e Bayern de Munique.

Mauro Beting começa a ler um texto contando brevemente a trajetória daquelas duas mulheres, seus sonhos, ideais. Impossível que não rolassem lágrimas, muitas lágrimas. Não apenas das candidatas, mas também dos jurados, apresentadora e toda equipe de produção que estava no estúdio.

Quando, sinceramente, eu já me preparava para dar os cumprimentos à Elaine, Mauro me surpreende dizendo o final do texto: “Agora chega. Já falei demais. Pareço até narrador. Mas você, campeã, não parece narradora…você já é. Você é a vencedora. Você vai para a Europa. Você vai para a tantantantan “THE CHAMPIONS”. Como diz a Taynah, você está no ar e nas nuvens. A narradora Lays é você…(um suspiro enorme e pausado) VIVI!

Minha única reação foi cair ao chão em prantos e agradecer imensamente por toda essa loucura insana e inimaginável que estava vivendo.

Dia 28 de Abril, malas prontas, passaporte em mãos. A menina de Itaquera – Zona Leste de São Paulo, que nunca havia imaginado ser narradora na vida e que nunca havia saído do país, embarcava para viver um dos seus mais lindos sonhos em Madri – Espanha: Ser a primeira mulher brasileira a narrar um jogo da Liga dos Campeões diretamente do estádio!

Primeira parada: Frente do Santiago Bernabéu. Coração acelerado, pernas trêmulas e olhos ligeiramente marejados. Como não agradecer por uma experiência única e incrível dessas?

Dia 01 de Maio de 2018, mais conhecido como o dia do trabalho. E há maneira melhor do que estar justamente neste dia diante de um Santiago Bernabéu lotado, em uma cabine de transmissão para narrar uma semifinal entre Real Madrid e Bayern de Munique e principalmente, representando não apenas 11 mulheres que participaram de um programa, mas tantas mulheres que lutam por seu espaço diariamente?

Além de toda a emoção de estar naquele ambiente mágico e contagioso do futebol, eu sabia da responsabilidade que tinha, levei as onze meninas comigo, na mente, coração e também em uma foto impressa, assim como também uma foto do meu amado pai. Hino da Champions tocando, olhos fixos no campo e um breve filme de tudo o que eu havia vivido no último mês passando pela minha cabeça. Era de arrepiar.

Fiz aquela narração não apenas por ser um sonho da Vivi Falconi, mas narrei por aquelas mulheres também, narrei pelo meu pai, pela minha família, narrei me divertindo com este esporte tão cativante que une vidas ao redor do mundo todo. No final faltou voz? Talvez. Mas é possível exigir tanta perfeição de uma pessoa que pela primeira vez está diante de um Santiago Bernabéu lotado, narrando um jogo dessa grandiosidade, sabendo que está escrevendo um momento histórico para as mulheres dentro do esporte? Acredito que a única coisa que pode ser exigida em um momento como este é: RESPEITEM AS MULHERES.

Diferente do que ouvi no dia em que ganhei o programa, eu não estava ali “por sorte”, estive ali por competência, talento e capacidade. Mostrei que a mulher pode sim estar aonde ela quiser e trabalhar como qualquer outra pessoa com responsabilidade. E meu desejo agora é que “NÃO DEIXEMOS ISSO MORRER”, que seja apenas o primeiro passo para que a mulher narradora, comentarista, repórter de campo, seja cada vez mais frequente e comum em nosso meio. Que nossa sociedade transforme seu modo mesquinho de pensar e saiba que a MULHER é forte, guerreira, sabe e vai ocupar o seu lugar.

Vivi Falconi, vencedora do programa “A Narradora Lays” promovido pelo Esporte Interativo e primeira mulher brasileira a narrar um jogo da Liga dos Campeões direto do estádio.

Texto escrito especialmente para o Blog Futebol-Arte!