A Babá Sueca

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A Babá Sueca – Por Humberto Mariano

Nunca gostei muito de futebol. Um esporte monótono, sem paixão, sem alma e, pior, sem criatividade. Onde já se viu um esporte em que quase um terço das partidas termina sem vencedores? E o que dizer da quantidade de disputas em que o maior objetivo do jogo, o gol, simplesmente, não acontece? Razão tinham Lima Barreto para quem “o football não goza do privilégio de cousa inteligente” e Graciliano que pregava “futebol não pega, tenho certeza; estrangeirices não entram facilmente na terra do espinho”. Serve mesmo, isso sim, à degeneração da raça. Em que outro esporte e em que outro país Gilmar Fubá, Beijoca, Tonhão, Marcio Rossini, Dunga, etc., seriam considerados atletas e esportistas?

Mas mesmo sem querer, vez ou outra, o futebol atravessou a minha vida, como por exemplo, em Maio de 1958. Na ocasião, papai era o embaixador brasileiro na Suécia, onde já estávamos há dois anos. Vida tranquila, embaixada sediada num palacete do século XVII, quase nada meu pai tinha a fazer. Eram raros os brasileiros que iam à Suécia e praticamente ninguém conhecia o Brasil por lá. E mesmo assim a embaixada tinha, além do embaixador e família, dois adidos, três diplomatas, cinco assessores, três secretárias e dois motoristas. E ainda tinham os empregados suecos: o mordomo, a cozinheira, três seguranças, três arrumadeiras e a minha babá, uma sueca de 19 anos, com olhos escandalosamente azuis, 1,79 mts de altura, 54 kgs, 86 cm de busto, 59 cm de cintura e 87 de quadril. Minha babá, a par desses predicados, falava além de sueco e português, fluentemente o inglês, o francês, o russo e o italiano. Como veem, era dura a minha vida na Suécia.

Quanto Maio já ia pela metade, a embaixada recebeu um informe do Rio de Janeiro de que a seleção de futebol chegaria para disputar a Copa do Mundo e que a embaixada se colocasse à disposição da delegação. No dia 2 de junho, ao sair para recebê-los no aeroporto, papai me convidou para acompanhá-lo. Naturalmente declinei do convite. Jamais deixaria o jogo de gamão de todas as tardes com a minha babá, para ir ver um monte de mulatos subnutridos, desengonçados, alguns com as pernas deformadas e quase nenhum com todos os dentes na boca. Ao voltar, papai falou do seu estranhamento com aquela delegação e comentou: “é por isso que ninguém dá nada por nós aqui na Europa; olha quem eles mandam para nos representar”. Mesmo assim cumpriu sua obrigação colocando-se à disposição para o que precisassem. Deu o telefone e o endereço da embaixada e ainda prometeu que iria assistir os três jogos que eles fariam por lá.

Comentou também, que ninguém da delegação, com exceção do dentista, falava outra língua que não fosse o português e a grande maioria nem mesmo do português conhecia mais que simples rudimentos. Talvez por isso o Brasil fosse a única delegação que trazia esse tipo de profissional. Homem de múltiplos talentos esse Dr. Mário, exímio contador de piadas, um inglês macarrônico, mas suficiente e com o boticão sempre a postos para socorrer os infelizes portadores de cáries e outras enfermidades da boca. Papai simpatizou com o chefe da delegação, um senhor gordo, calvo, sorridente, mas que usava um horrível terno marrom. Já ouvira falar dele no Brasil, parecia que tinha algumas rádios, até mesmo um canal de televisão.

O primeiro jogo foi no dia 8 contra a Áustria e, felizmente, papai não insistiu para que eu fosse ao estádio. Enquanto me distraía brincando com a babá, ele viu o Brasil ganhar de três a zero, um jogo chato, como eu já sabia. No dia seguinte dei uma olhada meio desinteressada nos jornais da embaixada e vi as fotos do jogo. Numa delas vi um brasileiro num pique pela esquerda, que segundo a legenda, terminara no segundo gol do Brasil. A foto identificava-o como Nilton Santos, a quem eu não conhecia, mas que não me pareceu o brasileiro típico da minha imaginação de menino educado em colégios nórdicos. Era branco, mais alto que a média dos brasileiros, um discreto bigode que lhe emprestava elegância e a passada firme, pelo menos a da foto da Associated Press. Papai já havia comentado que tinha mais brancos do que pretos e mulatos naquele time. Para mim, que nada entendo de futebol, aquilo era um bom presságio.

Na quarta-feira, dia 11 teve o segundo jogo, contra a Inglaterra. De novo, numa cidade distante: Gottemburg a 430 quilômetros de Estocolmo, onde morávamos. Entre ir com o motorista dirigindo uma das três Mercedes da embaixada, ele preferiu pegar o trem das 7,52 horas, cuja chegada em Gottemburg estava prevista para as 13,04 horas. Exatamente às 13,07, papai já estava fora da estação e dentro de um táxi rumo ao Estádio Nya Ullevi. Outro jogo chato, daqueles em que não tem vencedor, nem gol, o que só pode ocorrer em um esporte sem graça como o futebol. Da tribuna de honra, papai viu o semblante preocupado dos jogadores e dos dirigentes brasileiros. Depois da ligeira euforia da estreia, aquele empate foi como uma ducha de água fria. O terceiro e, quase certamente, o último jogo naquela Copa para o Brasil seria contra a União Soviética. Sem chance. Na porta do estádio, papai encontrou dois jovens coletando dinheiro para montar uma peça ou fazer um filme, sei lá. Deu-lhes cinquenta coroas suecas e seu cartão de visitas para que fossem vê-lo na embaixada. Quem sabe arrumava-lhes um patrocínio. Perguntou seus nomes: ele Ingmar, ela Ingrid. Ela apareceu uma tarde, foi a única vez em que não joguei gamão com a babá no verão de 1958, que, por sinal, aquele ano caiu no último final de semana de junho.

Dia 15, dia do terceiro jogo cairia num domingo. E seria, de novo, em Gottemburg. Fosse o papai o típico funcionário público brasileiro teria ficado na cidade os três dias que antecediam a partida enforcando o expediente. Mas mesmo sem nada para fazer na embaixada, ele voltou para Estocolmo para assinar o ponto diariamente como sempre fazia. Eram os princípios de nossos ancestrais nórdicos que falavam mais alto junto ao coração daquele circunspecto diplonata, representante de um país em que não nos reconhecíamos mais. Sábado pela manhã, mandou o motorista comprar sua passagem para Gottemburg, já nem pensava mais em perder tempo me convidando. Depois do almoço, enquanto me dirigia ao quarto da babá para jogarmos gamão, ele fazia a sua sesta.

No meio da tarde, um sobressalto. O mordomo apressado subiu as escadas, bateu á porta do quarto de papai e avisou-lhe que havia visitas. Como? Visitas àquela hora? E ainda, por cima, inesperadas. Não era coisa de sueco ir á casa de qualquer pessoa sem avisar pelo menos quinze dias antes. Devia ser brasileiro perdido na cidade com algum problema de documentação. Não, isso não era provável. Havia funcionários para cuidar disso e não o acordariam por esse tipo de problema. Seria emissário do Itamarati? Não, o Itamarati não funciona sextas, sábados e domingos. O jeito é descer e ver o que está acontecendo. “Por favor, Mr. Olaf, encaminhe-os ao meu escritório. Estou indo”. Mr. Olaf era o mordomo.

Ao entrar em seu escritório, uma sala de cento e oitenta metros quadrados, tapetes persas cobrindo todo o assoalho, tapeçarias flamencas nas paredes, um Matisse autenticado na parede atrás de sua mesa e dois jogos de sofá de couro de antílope australiano, encontrou o simpático senhor, chefe da delegação da seleção, com seu horrível terno marrom e o dentista metido num surrado agasalho verde amarelo, tão feio quanto o terno do “Doutor” Paulo. Era assim que chamavam o velho sorridente.

Sentou-os e foi direto ao ponto. “O que fez vocês percorrerem quase 500 quilômetros e vir aqui nas vésperas de um jogo tão importante?” Mesmo nervoso Dr. Paulo começou a falar. “Queriam ganhar aquele jogo de qualquer maneira, tinham que calar a boca dos pessimistas que já acampavam no Santos Dumont para apedrejar os fracassados. Pelo menos chegar na semifinal. Menos que isso seriam execrados. Tinham que mexer no time, trocar no mínimo três peças, já sabiam até quem colocar”. Papai o interrompeu. “Pois então façam , vocês é que entendem de futebol, eu ainda estou tentando entender o tal do impedimento. Como poderia ajudá-los, ignorante que sou no tema”.

Dr. Paulo retomou a palavra. “Dos três que entram, dois assimilaram muito bem, um deles nem deu a mínima quando lhe avisamos. Saiu assobiando, arrastando o chinelo e tentando achar um samba no rádio que comprara no dia anterior. O outro, vindo de um clube cosmopolita, viajado, está pronto pra entrar e dar conta do recado. O problema é o menino”. Papai já estava impaciente. “Que menino”? De novo Dr. Paulo: “um craque, senhor embaixador, com ele a gente ganha, um fenômeno, sabe tudo de bola, mas está com medo, vem de contusão, acha que vão quebrá-lo; não estamos conseguindo convencê-lo, o senhor precisa nos ajudar”.

“Eu? Como? Quantos anos ele tem? Só tenho um filho, criança ainda, não entendo nada de adolescente. Vocês querem que eu dê uma prensa oficial nele? Ameaçar prender o pai lá no Brasil? Isso eu não faço; E, ademais, ele está em Gottemburg, eu aqui. Por telefone, isso não funciona”. Finalmente, o dentista abriu a boca.”Não, senhor embaixador, ele está aqui; o deixamos no jardim da embaixada enquanto a gente apresentava o problema. Se precisasse, a gente chamava. Na certa ele iria se intimidar com o senhor e esse ambiente”.

“Pois bem, vamos aos jardins”, papai sugeriu. Quando lá chegaram depararam com a cena que fez o coração do Dr. Paulo quase sair do peito e o dentista abrir o maior sorriso que já vi na minha vida. Estávamos eu, a babá e o rapazinho brincando com uma bola, que para mim não passava de um brinquedo de pobre, coisa sem importância, mas que para os dois parecia o próprio cálice sagrado, tamanha a reverência com que a tratavam. Reverência e intimidade, coisas que, a princípio, incompatíveis, o que não era o caso ali. Entre chutes, embaixadas e cabeçadas, o garoto prometia à Ulla, esse era o nome da minha babá, que domingo ia entrar no time, jogar todos os jogos que faltavam, ia fazer um monte de gols, dedicar á ela, ganharia a Copa, faria dois gols na final e mais um monte de baboseiras. Enquanto falava, o moleque babava e eu só olhava.

Ciúmes eu? Nem pensar. Aquele crioulinho era só papo. Mirradinho, com problemas de dupla personalidade, falava de um jeito engraçado, nem mesmo fiquei sabendo seu nome; as vezes era Edson, noutras usava um apelido esquisito de qual não me lembro. E terminava suas paupérrimas frases com um indefectível “entende?”. Estava na cara que não ia dar em nada. Depois daquilo continuo ignorando o futebol, mas de vez em quando me assalta a dúvida: O que terá Ulla dito àquele garoto enquanto eu fui buscar a bola no quarto dela? E ele, será que conseguiu ser alguém na vida? E, o que realmente importa, onde andará Ulla?

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Ricardo Roca
Formado em Comunicação Social e pós-graduado em Administração de Empresas, ambos os cursos pela ESPM, atualmente cursando mestrado em Linguística. Professor universitário, sócio da Roda Fiandeira, consultor nas áreas de comunicação e marketing e apaixonado por futebol e arte.

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