Juiz ladrão – Por Ricardo Roca

1
1224

“Uma quadrilha fez um arrastão num centro esportivo para locação de campos de futebol no Morumbi (zona oeste), na noite de quarta (1º), por volta das 21h30…”

“…para evitar chamar a atenção, uma parte do grupo pediu para o pessoal continuar a jogar futebol como se nada estivesse acontecendo.”
Folha de São Paulo, 03 de outubro de 2014

Toda quarta a noite a turma se reunia para jogar futebol num campo de society perto do banco. O pessoal da área Comercial contra o pessoal da Auditoria. Ao longo do ano os resultados iam sendo computados como em um campeonato e cada vitória, cada gol, ajudava a determinar quem seria o campeão daquele ano. Aos perdedores, sobravam o pagamento de um churrasco completo e as gozações inevitáveis.

Nogueira, do Marketing, 49, sofrendo as dores de uma contusão no joelho, apitava; e conseguia um feito difícil para qualquer árbitro, tinha o respeito dos jogadores, todos o consideravam honesto. Honesto não, honestíssimo. Nas últimas semanas, rolava na “rádio-peão”, nos corredores do banco, o boato de que havia se engraçado com a Vilminha, uma bela morena da Auditoria, contratada alguns meses antes.

O time da Auditoria tinha conquistado muitas vitórias a mais no começo do ano e como já estávamos em outubro, mais uma vitória lhe daria uma vantagem difícil de ser revertida. A esperança do time do Comercial era Rodney; desde que ele fora contratado, em agosto, o time estava invicto e a vantagem vinha diminuindo. O jogo transcorria normalmente, jogadores com quilos a mais, habilidades a menos, torcida animada do lado de fora, todo mundo tomando cerveja, petiscando e curtindo o lazer. Já entrando nos últimos 10 minutos o placar acusava, 1 x 1.

Foi quando, de repente, gritaria, correria… um assalto! Eram seis, aparentavam ser jovens, todos mascarados, pedindo calma que ninguém sairia machucado e que passassem dinheiro, joias, objetos de valor, essas coisas que se pede em assaltos. Outro pedido no entanto, desconcertou a todos. Pediram que o jogo continuasse, para não chamar a atenção de quem passava pela rua.

Os “atletas” retomaram o jogo, meio sem jeito, preocupados com namoradas, filhos, colegas e quem mais estivesse fora da quadra, nas mira dos assaltantes. Era inevitável, cada jogador passava a bola e olhava pra ver o andamento do roubo, chutava de longe e virava o pescoço, meio disfarçando, mas tentando ver os acontecimentos. De repente, a bola foi despachada da defesa da Auditoria, um chutão de longe direto pra área do Comercial. Não durou nem cinco segundos, Banza ajeitou com a mão e fuzilou pro gol no exato momento em que o Nogueira olhava pra Vilminha, preocupado. Auditoria 2 x 1 Comercial. As queixas do pessoal do Comercial a respeito do gol irregular só não foram maiores por causa do arrastão,  ainda em andamento.

Com o final do assalto, veio o final do jogo e entre mortos e feridos, salvaram-se todos. “Pelo menos ninguém se machucou”, dizia um, “Dinheiro a gente trabalha e ganha de novo”, concordava outro.

Horas depois, enquanto o pessoal do Comercial ainda se queixava do gol irregular, Nogueira e Vilminha contavam o dinheiro do roubo que tinham arquitetado em total sigilo há algumas semanas. Se no amor e no jogo vale tudo, nos negócios, planejamento estratégico faz toda a diferença.

Homenagem a Moacyr Scliar, escritor gaúcho que foi colaborador do jornal Folha de São Paulo entre 1993 e 2011, onde publicava crônicas de ficção desenvolvidas a partir de notícias reais publicadas no jornal.

#futeboleliteratura

1 COMENTÁRIO

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.